A fita branca que dá título a este novo trabalho de Michael Haneke e que por diversas vezes é mencionada pelo roteiro da produção, remete o espectador à inocência infantil, tema tratado com bastante contundência neste filme vencedor do Festival de Cannes de 2009. O fato é que o roteiro, escrito brilhantemente por Haneke, expõe, com bastante controle e senso narrativo, a condição humana em seu mais obscuro aspecto.
Semelhante a proposta de Lars Von Trier em Dogville, Michael Haneke ambienta A Fita Branca em um vilarejo europeu composto por uma população aparentemente dócil e de valores éticos bem consolidado, aos poucos o cineasta revela que por trás do aparente modelo de conduta a ser seguido está o ser humano em sua pior faceta. O roteiro de Haneke é todo voltado para a perspectiva das crianças que fazem parte da trama, utilizando estes personagens como elemento-constatação de que o adulto que somos é fruto da infância que tivemos. O diretor e roteirista utiliza com sabedoria todas as possibilidades narrativas e reviravoltas de que dispõe para fazer o espectador refletir sobre a seguinte questão: Será que a perda da inocência tanto temida pelos pais daquelas crianças é um risco que elas correm em função delas mesmas ou do ambiente castrador, abusivo e agressivo a que as mesmas são submetidas?
Assim, Haneke realiza com sua obra um pertinente debate sociológico sobre a infância, a perda da inocência e as consequências terríveis que o abandono e o mau trato pode trazer na construção do caráter de um adulto. O roteiro acerta em cheio ao colocar a responsabilidade nas mãos dos pais(o curioso, e assustador, é observar que o comportamento dos adultos retratados no longa são perpetuados até hoje, não mostrando-se como um comportamento isolado em seu tempo).
O roteiro bem amarrado é acompanhado pela excelente condução do diretor e pela ótimo trabalho de edição, mencionando ainda a beleza da fotografia em preto e branco do longa. A performance de todo elenco, atenção especial para o grupo infantil, é admirável e confere emoção necessária ao filme, não tornando-o uma obra fria, desprovida de sentimentos como a maioria dos filmes com proposta semelhante.
A Fita Branca é uma obra única na carreira de Michael Haneke e aberta a inúmeras possibilidades de interpretação e discussão. O longa revela o retrato de uma sociedade opressora que dissemina o que de pior existe no instinto humano desde a mais tenra idade. Haneke torna seu filme um alerta, uma narrativa reflexiva sobre os caminhos seguidos pelo homem.


